Cansaço extremo, náusea, dor nas costas e falta de ar são sinais frequentemente ignorados ou confundidos com estresse e ansiedade. O desconhecimento sobre os sintomas atípicos do infarto feminino atrasa o diagnóstico e eleva a taxa de mortalidade.
Quando se pensa em um ataque cardíaco, a imagem clássica que vem à mente é a de um homem mais velho levando a mão ao peito, sentindo uma dor esmagadora que irradia para o braço esquerdo. Este estereótipo, reforçado por décadas de filmes e campanhas de saúde, está perigosamente desatualizado e tem custado a vida de milhares de mulheres. Especialistas alertam: o infarto em mulheres não só está se tornando mais comum, especialmente em faixas etárias mais jovens, como também se manifesta de forma sutil e atípica, levando a diagnósticos tardios e fatais.
Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e de estudos internacionais mostram uma tendência preocupante. Enquanto as mortes por doenças cardiovasculares em homens têm apresentado leve queda nas últimas décadas, os números entre as mulheres permanecem estáveis ou, em alguns grupos, em ascensão. O infarto já é a principal causa de morte entre as brasileiras, superando o câncer de mama e de útero somados.
A razão para essa disparidade trágica é uma combinação de fatores biológicos, sociais e culturais. “O coração da mulher é fisiologicamente diferente, e a forma como a doença arterial coronariana se desenvolve nela também pode ser distinta”, explica a Dra. Ana Carolina Bastos, cardiologista do Instituto do Coração (InCor). “Além disso, a mulher moderna enfrenta uma carga de estresse monumental, com jornadas duplas ou triplas, e muitas vezes coloca a saúde da família à frente da sua, negligenciando os primeiros sinais.”
Os Sintomas que Enganam: Muito Além da Dor no Peito
O principal perigo reside na diferença dos sintomas. Enquanto a dor no peito (angina) pode ocorrer em mulheres, ela raramente é o único ou o principal sinal. Muitas vezes, os sintomas são vagos e facilmente atribuídos a outras causas menos graves, como indigestão, crise de ansiedade ou cansaço muscular.
Sintomas mais comuns de infarto em mulheres:
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Cansaço Incomum e Súbito: Uma exaustão avassaladora, que impede a realização de tarefas simples e não melhora com o descanso.
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Falta de Ar: Dificuldade para respirar, mesmo em repouso ou com mínimo esforço.
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Dor em Locais Atípicos: Desconforto ou dor nas costas (principalmente entre as escápulas), no pescoço, na mandíbula ou no estômago.
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Náuseas, Vômitos e Tontura: Sintomas semelhantes a uma gripe ou problema gastrointestinal.
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Suor Frio e Palidez: Geralmente acompanhados de uma sensação de mal-estar generalizado.
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Ansiedade ou Sensação de Morte Iminente: Um sentimento inexplicável de que algo muito grave está para acontecer.
“A mulher chega ao pronto-socorro dizendo que está com uma dor ‘estranha’ nas costas e um cansaço que não passa. Se o profissional de saúde não estiver treinado para pensar em infarto com esse quadro, ele pode prescrever um analgésico ou um ansiolítico e mandá-la para casa. Esse erro pode ser fatal”, alerta Dra. Bastos.
SINAIS DE ALERTA: NÃO IGNORE SEU CORPO
É crucial entender as diferenças entre os sintomas clássicos (mais comuns em homens) e os atípicos (frequentes em mulheres).
Sintomas Clássicos (Mais comuns em Homens) | Sintomas Atípicos (Frequentes em Mulheres) |
✔️ Dor forte e aguda no peito, como um aperto | ✔️ Cansaço extremo e inexplicável |
✔️ Dor que irradia para o braço esquerdo | ✔️ Falta de ar súbita |
✔️ Suor intenso | ✔️ Dor nas costas, pescoço ou mandíbula |
✔️ Náusea, vômito ou dor no estômago | |
✔️ Tontura, vertigem e palidez | |
✔️ Ansiedade ou sensação de desgraça iminente |
Por Que o Risco Aumentou?
A tempestade perfeita para o coração feminino é formada por múltiplos fatores de risco que se intensificaram na vida moderna:
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Estresse Crônico: A gestão da carreira, da casa e dos filhos gera um nível de cortisol e adrenalina que sobrecarrega o sistema cardiovascular.
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Fatores Hormonais: Após a menopausa, a proteção natural oferecida pelo estrogênio diminui, aumentando o risco de doenças cardíacas. O uso de contraceptivos orais em fumantes também é um fator de risco elevado.
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Diabetes e Hipertensão: Condições que são mais agressivas no sistema cardiovascular feminino.
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Tabagismo e Sedentarismo: Hábitos que têm aumentado entre as mulheres.
A Lição: Escute Seu Corpo e Exija Atenção
A principal arma contra essa estatística alarmante é a informação. Mulheres precisam conhecer seu corpo, entender os sinais de alerta e, principalmente, confiar em sua intuição.
“Se você sentir algo diferente, um cansaço que nunca sentiu, uma falta de ar estranha, não pense duas vezes. Procure um serviço de emergência e seja enfática: ‘Eu acho que posso estar tendo um infarto'”, recomenda a cardiologista. “O tempo é crucial no tratamento. Cada minuto perdido significa mais músculo cardíaco morrendo.”
A mensagem dos especialistas é unânime: a conscientização precisa mudar. Campanhas de saúde devem ser redesenhadas, profissionais de saúde precisam de treinamento contínuo e, acima de tudo, as mulheres devem se sentir empoderadas para colocar sua própria saúde como prioridade máxima. Conhecer os sintomas atípicos não é apenas uma questão de informação, é uma ferramenta de sobrevivência.