“Esses casos extremos e que chocam a sociedade irão continuar acontecendo se nós não entendermos que a nossa sociedade está adoecendo cada vez mais e que mulheres sofrem, sim, de transtornos mentais graves. A maternidade não é esse romantismo pregado ou visto na mídia. Cada mulher é única e tem os seus sofrimentos”, diz a psicóloga de Mato Grosso do Sul Juliana Sacerdote, especialista em Psicologia Perinatal.
O comentário feito pela psicóloga de Mato Grosso do Sul Juliana Sacerdote, especialista em Psicologia Perinatal, sobre um recente caso de infanticídio ocorrido no interior de São Paulo, acende um alerta para a necessidade de a sociedade acolher as mulheres, principalmente durante um período tão delicado como o da gestação. O caso que chocou o Brasil aconteceu na cidade de Águas de Santa Bárbara (SP).
Conforme informações da Polícia Civil de São Paulo, a mulher, de 31 anos, adentrou deliberadamente um trecho do Rio Pardo, com a filha recém-nascida nos braços, em uma suposta tentativa de suicídio. A criança não sobreviveu, mas a mulher foi resgatada com vida e, posteriormente, presa pelas autoridades, que agora investigam a possibilidade de uma depressão pós-parto.
Conforme informações da Polícia Civil de São Paulo, a mulher, de 31 anos, adentrou deliberadamente um trecho do Rio Pardo, com a filha recém-nascida nos braços, em uma suposta tentativa de suicídio. A criança não sobreviveu, mas a mulher foi resgatada com vida e, posteriormente, presa pelas autoridades, que agora investigam a possibilidade de uma depressão pós-parto.
Conforme a psicóloga Juliana Sacerdote, o infanticídio — crime que ocorre quando a mãe mata o próprio filho durante o parto ou logo após o nascimento, sob a influência do estado puerperal — não é um fato isolado. A legislação brasileira tipifica o ato como crime, mas muitas vezes não é debatido o contexto de sofrimento psíquico que pode estar por trás desses casos.

Juliana explica que muitas mulheres já apresentam transtornos mentais prévios, que podem se intensificar no pós-parto devido às bruscas alterações hormonais e emocionais. No entanto, frequentemente a família não reconhece os sinais, e a psicóloga opina que o sistema de saúde também falha ao não integrar a avaliação psicológica ao pré-natal, que costuma focar apenas nos aspectos físicos da gestação.
Segundo Juliana, situações ‘extremas’ poderiam ser evitadas com a devida investigação de histórico de transtornos mentais durante o pré-natal, bem como com acompanhamento psicológico adequado durante gravidez e, principalmente, no puerpério. A psicóloga também critica a romantização da maternidade e o pensamento de que toda mulher grávida está feliz e realizada.
“É algo que choca, mas que tem que nos levar à reflexão sobre onde está o erro. Nós precisamos rever o conceito de maternidade, nós precisamos rever o conceito de gravidez, nós precisamos rever os conceitos de saúde mental lá no início da gestação, quando essa mulher ou essa adolescente começar o seu pós-parto”, cita.
Hormônios à flor da pele
Conforme explica a médica ginecologista e obstetra Karina Zucarelli, a mulher é ‘bombardeada’ por hormônios durante a gestação, principalmente progesterona e estrogênio. Isso é essencial para o desenvolvimento do bebê; no entanto, essas mudanças causam diversos sintomas nas gestantes, como sono excessivo ou cansaço, náuseas, inchaço, intestino mais preso e oscilações de humor.
Karina cita que, emocionalmente, é uma fase de grande sensibilidade para a mulher. “Eu falo para as minhas pacientes que a gestação é uma montanha-russa de emoções. A mulher pode ficar mais chorosa, ansiosa ou insegura, e isso é esperado. Ela está vivendo uma mudança física, hormonal e também de identidade.”
A profissional explica que, após o parto, a mulher sofre uma ‘queda hormonal’ muito rápida, após eliminar toda a placenta. Essa diminuição brusca afeta diretamente o humor, somada ao fato de a mulher estar dormindo pouco, sentindo dor, em processo de adaptação à amamentação e com cansaço físico. Tudo isso enquanto está cuidando de um recém-nascido.
“Tudo isso junto pode gerar choro fácil nos primeiros dias, o chamado ‘baby blues’. Eu tive ‘baby blues’ no meu primeiro puerperal, e a rede de apoio é fundamental para superarmos isso. A ansiedade e a sensação de incapacidade também precisam ser olhadas de perto, para não evoluir para depressão pós-parto. Por isso, é fundamental falar sobre saúde mental no pós-parto.”

O que é puerpério?
Conforme a médica ginecologista e obstetra Karina Zucarelli, o puerpério é o período que começa logo após o parto. É nessa fase que o corpo começa a voltar, aos poucos, ao que era antes da gravidez. Esse processo dura, em média, cerca de 45 dias, mas Karina ressalta que algumas mudanças podem continuar por meses, principalmente se a mulher estiver amamentando.
Nesse período, o útero diminui de tamanho, o sangramento reduz, o corpo se adapta à produção de leite e há, novamente, uma grande mudança hormonal. Durante essa fase, é importante observar se a mulher possui sangramento excessivo, cuidar da limpeza da cicatriz (seja parto normal ou cesárea), ficar atenta a sinais de infecção e buscar ajuda psicológica se sentir tristeza intensa ou persistente.
“Além dos hormônios, o contexto da mulher influencia muito. Alguns fatores que pesam são a falta de ajuda em casa, cobrança para ‘dar conta de tudo’, conflitos no relacionamento, dificuldades na amamentação, comparações com outras mães, pressão das redes sociais, problemas financeiros e as temíveis cólicas do recém-nascido. A mulher não está apenas cuidando de um bebê, ela está se reconstruindo como mãe. Por isso, é fundamental existir acolhimento, apoio e escuta”, reforça a médica.
Pré-natal psicológico
De acordo com a psicóloga especialista em Psicologia Perinatal Juliana Sacerdote, cerca de 55% das gestações no Brasil não são planejadas. Essa estimativa impacta diretamente os casos de transtornos psicológicos desenvolvidos pela gravidez, uma vez que mulheres despreparadas para passar pela gestação estão mais suscetíveis a estes diagnósticos.
A profissional explica que, quando mulheres desejam filhos e planejam suas gestações, elas tendem, naturalmente, a receber bem a notícia da gravidez. Quando gestar não está nos planos, aumentam as chances de a notícia impactar negativamente. “A angústia e o sofrimento com uma gestação geralmente acontecem muito antes do pós-parto. A mulher já vem desenvolvendo um tipo de transtorno, que, quando chegar ao pós-parto, vai se intensificar, porque muitas vezes essa gestação não foi planejada.”
Juliana compartilha que a saúde mental ainda é pouco investigada no pré-natal, que costuma focar apenas nos aspectos físicos. A profissional enfatiza que o ‘pré-natal psicológico’, bem como uma rede de apoio consolidada, são essenciais, principalmente quando se trata de mulheres mais suscetíveis a desenvolver transtornos durante ou após a gestação, como é o caso de pacientes com nível alto de ansiedade e portadores de transtorno de personalidade, por exemplo.
Embora pouco divulgado, a psicóloga ressalta que o acompanhamento psicológico durante a gestação pode acarretar, ainda, o acompanhamento da profissional no momento do parto. “Hoje já é permitido que o profissional de Psicologia possa entrar na sala de parto para acompanhar essa mulher. Só que, infelizmente, aquilo que está na lei não está sendo repetido, não está sendo feito de forma adequada para essas mulheres.”

‘Baby blues’ e depressão pós-parto
De acordo com a psicóloga especialista em Psicologia Perinatal Juliana Sacerdote, existem alguns transtornos específicos que as mulheres podem desenvolver durante o puerpério. O quadro mais leve, e que costuma passar em poucos dias, é o chamado ‘baby blues’, estado em que a mulher fica mais chorosa e reclusa.
Quando os sintomas do ‘baby blues’ persistem e se agravam, o quadro evolui para uma depressão pós-parto, condição que pode durar meses e gera um isolamento total da mulher.
A alteração hormonal que ocorre no corpo da mulher durante a gestação e o puerpério também contribui para o surgimento desses transtornos. Conforme explica Juliana, um influencia o outro diretamente, pois a mulher passa por duas transformações intensas: a primeira por conta das alterações hormonais, e a segunda pela mudança brusca de rotina.
“Se a criança demandar um cuidado maior e essa mulher não tiver rede de apoio, ela vai ter muita privação de sono; muitas vezes, vai precisar se adaptar a uma nova rotina que ela não estava acostumada antes. Então, ela vai ter mais irritabilidade, choro. E, também, todo aquele cuidado que às vezes estava voltado para aquela mulher que esperava aquela criança desaparece, e a família passa a voltar-se apenas para o bebê”, explica a psicóloga.
Entendendo os transtornos
A psicóloga especialista em Psicologia Perinatal Juliana Sacerdote explica que, durante o puerpério, as mulheres podem desenvolver diferentes transtornos mentais, embora muitos ainda sejam pouco debatidos. O quadro mais leve é a disforia puerperal (baby blues), que surge nos primeiros dias após o parto, atinge pico por volta do quarto ou quinto dia e tende a desaparecer, espontaneamente, em até duas semanas. Os principais sintomas são choro fácil, irritabilidade e maior sensibilidade emocional.
Já a depressão pós-parto pode surgir entre dois e seis meses após o nascimento, e o risco pode se estender por até dois anos, devido às mudanças intensas que ocorrem na vida da mulher. Os principais sintomas incluem: isolamento, perda de interesse e prazer, alterações no sono e apetite, fadiga, culpa, sensação de inutilidade e dificuldade de concentração. Geralmente, esses quadros exigem acompanhamento psicológico e, em alguns casos, psiquiátrico.
A forma mais grave é a psicose pós-parto, mais comum em mulheres com histórico psiquiátrico pessoal ou familiar, conforme explica Juliana. Os episódios podem envolver delírios relacionados ao bebê, como, por exemplo, acreditar que ele está doente, possui poderes especiais ou precisa ser morto. Neste último caso, representa um risco real e exige intervenção imediata.
“Cada pessoa é única. Não quer dizer que uma mãe com psicose, ela vai matar o filho. Se ela for muito bem acompanhada, essa mãe vai passar por esse processo e vai ficar bem, assim como a depressão pós-parto. Tem como evitar [esses transtornos] no pré-natal. Eu já tenho casos de pacientes que me procuraram com depressão antes, no período de gestação. E elas tiveram seus bebês, não tiveram depressão pós-parto, porque tem toda uma preparação psicológica de reconhecimento de como ela vê essa gravidez”, compartilha Juliana.

Também podem ocorrer, frequentemente, casos de transtornos de ansiedade generalizada (preocupações excessivas com o bebê, insônia, tensão muscular e dificuldade de concentração) e fobia social, relacionada ao aumento das interações após o nascimento.
Já os casos de estresse pós-traumático podem ocorrer quando o parto é vivido como uma experiência traumática, com medo de morte ou complicações. O transtorno obsessivo-compulsivo pode surgir ou se intensificar nesse período, assim como o transtorno do pânico, especialmente nas primeiras 12 semanas.
A psicóloga enfatiza que o diagnóstico é feito como em qualquer outro quadro de saúde mental: a partir da avaliação clínica por psicólogo ou psiquiatra e, quando necessário, aplicação de testes psicológicos. Por fim, o tratamento varia conforme a gravidade e pode incluir psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico e uso de medicação, com o objetivo de reduzir o sofrimento da mãe e prevenir riscos para ela e para o bebê.
Idaicy Solano – midiamax
(Foto: Reprodução, Freepik)

